A visibilidade: construindo causas sociais.

Milk, filme estrelado por Sean Pen, é uma aula de como viabilizar uma causa social.

A luta desenfreada que alguns indivíduos travam para obter visibilidade, muitas vezes pode ser entendida como uma manifestação fútil do ego humano, que sempre almeja estar no centro das atenções. Mas em alguns casos a visibilidade, ou a busca por ela, tem contornos mais nobres. Ela pode servir como ferramenta para fomentar a viabilidade de causas sociais, que podem entrar para a pauta de discussões da esfera pública graças à repercussão que recebem. A história verídica do ativista gay, Harvey Milk, retratada no filme Milk (EUA, 2008), estrelado por Sean Pen, mostra muito bem como um movimento social se cria por meio da visibilidade que recebe gradualmente.

Uma análise do filme Milk à luz do artigo “As Relações Públicas na constituição das causas sociais: mobilização como ato comunicativo” dos estudiosos Márcio Simeone Henriques, Clara Soares Braga e Rennan Lanna Martins Mafra, mostra que o movimento iniciado por Harvey Milk, em sua luta pelos direitos dos gays, passa por vários estágios até a sua constituição como causa social.

As etapas de constituição de uma causa social, propostas no artigo, podem ser identificadas no desenrolar do filme, passando pela problematização, a comunhão, a afirmação e a convocação.

A problematização, a primeira etapa, ocorre quando Milk e seu namorado Scott tomam consciência do problema que enfrentam e passam a comunicá-lo. O ato da comunicação é importante nessa etapa como aponta os autores do artigo, já que a problematização não se constitui a apenas da tomada de consciência, mas da produção de um enunciado. É nessa etapa que é verificado se o problema enfrentado é um problema possível de ser coletivizado, é quando ele deixa de ser apenas um problema pessoal para se tornar também um problema para o outro. No filme, isso acontece quando a loja de Milk passa a ser um ponto de encontro para os gays do Bairro Castro.

A segunda etapa, a comunhão, se dá quando existe uma unificação de diversos discursos em apenas um só, que seria o manifesto. É quando o problema passa a ser coletivizado e existindo assim uma co-responsabilidade entre os indivíduos. No filme, essa etapa pode ser identificada quando gays começam a se organizar para lutar contra o preconceito e a violência contra os gays, onde cada indivíduo gay torna-se responsável não apenas com o que acontece consigo mesmo, mas também com o que acontece com os outros homossexuais.

A partir daí entra-se na terceira etapa, a afirmação, Milk decide se candidatar a supervisor da cidade de São Francisco, levantando assim uma bandeira. É nessa etapa como demonstra os autores do artigo, que o movimento passa a ser difundido e a contar com referenciais simbólicos. Milk então passa a ser uma espécie de símbolo da luta pelos direitos dos gays. O movimento gay, a partir de então, tem uma imagem de identificação, uma bandeira. Como o próprio Milk afirma em determinada parte do filme: “Política é como teatro, eu não sou o candidato, o movimento é candidato”.

Na última etapa, a Convocação, o movimento esta pronto, apto e aberto a receber simpatizantes. Não por acaso, Milk, abre todos os seus discursos dizendo que esta lá para “convocar” todos os presentes. Nesse ponto do filme, Milk e seus companheiros de luta começam a buscar aliados para a sua causa e estabelecer estratégias de campanha.

De certa forma, todas essas etapas, como os próprios autores argumentam, ocorrem quase que de forma simultânea, não existindo uma exata delimitação. Isso também pode ser percebido no filme, onde cada fase se sobrepõe a outra. O importante nisso tudo é perceber como a constituição de uma causa se da por meio de um grau crescente de visibilidade. Percebe-se no desenrolar da história que Milk vai ao poucos deixando de ser apenas mais um gay que sofre preconceito para se tornar conhecido no país inteiro como líder de um movimento, dividindo assim a opinião pública.

Wilson Gomes em seu artigo “Publicidade, Visibilidade, Discutibilidade: para uma revisão do conceito de esfera pública política” diz que: “a esfera pública é o domínio social da visibilidade, da troca de razões e da troca de razões públicas”. A existência da esfera pública é imprescindível para existência da democracia e é justamente isso que o movimento gay buscava: a democracia. A partir da iniciativa de Milk, o movimento ganha uma crescente visibilidade tornando-se assim um assunto discutível pela a esfera pública, que por sua vez fomenta a opinião pública, concretizando assim a existência de um problema coletivo.

Conclui-se assim, que a visibilidade, que pode ser vista como algo maléfico por alguns, para a legitimação de um movimento social é extremamente benéfica e necessária. O próprio Wilson Gomes diz: “… na clausura, também se pode discutir e discutir em profundidade, mas o segredo não faz boa democracia.” Por tanto, todo movimento que queira a sua legitimação deve buscar a visibilidade.

Uma resposta para “A visibilidade: construindo causas sociais.”

  1. Clara Soares Braga Diz:

    Excelente análise a partir de nosso artigo, obrigada pela contribuição.

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