Análise sobre a construção da identidade em um contexto contemporâneo.
Quantos já não sonharam com a possibilidade de ter uma nova identidade, de ser outra pessoa diferente daquela que se é, com novos gostos, vícios e virtudes, de viver a fantasia do filme “Quero ser John Malkovich” (EUA, 1999). O filme que tem como tema principal, o desejo dos personagens de estarem na pele de outra pessoa, uma pessoa reconhecida, fugindo assim da ordinariedade cotidiana, serve como base para realizar uma reflexão sob a luz do artigo “Isso não é um filme?” (Micael Herschmann e Carlos Alberto Messeder Pereira) de como a interação mediada, que surgiu com os meios de comunicação, vem transformando a construção da identidade dos indivíduos.
Nota-se que os indivíduos das sociedades contemporâneas, têm buscado na mídia os conteúdos que iram compor a suas identidades. A mídia por sua vez, vem cada vez mais dando preferência ao material bibliográfico. Cada vez mais, pessoas comuns, sem talento algum, alcançam o status de celebridades, baseando se apenas em sua história de vida.
Essas novas características iram criar uma perspectiva em que a realidade passa a ser pautada por ela mesma refletida nos meios de comunicação. Como sugere os autores no citado artigo, “essas narrativas biográficas não presenciais e mediáticas nos abastecem de sentidos e significados, orientam em grande medida as nossas vidas.” (Herschmann Pereira, pág 32)
Os autores ainda argumentam que, o interesse do público nos materiais bibliográficos veiculados pela mídia, muitas das vezes servem para suprir determinadas carências. Muitas personalidades servem como referencial de virtudes e de atos heróicos; outras chamam a atenção pelo estilo de vida que levam; e existem aquelas que despertam interesse por serem apenas famosas ou estarem em contato com pessoas famosas, constituindo assim uma forma de escapar do anonimato.
Essa última característica, que ilustra muito bem a questão das celebridades, e a busca frenética pelos quinze minutos de fama, que se instaurou de forma significativa na sociedade contemporânea, está presente em “Quero ser John Malkovich”, onde várias pessoas pagam para permanecerem exatos quinze minutos dentro do corpo do ator John Malkovich, muito pelo fato dele ser apenas uma pessoa famosa e não por reconhecer nele uma pessoa de talento. O filme até ironiza esse fato, quando mostra que algumas pessoas nem sabem ao certo em qual filme John Malkovich atuou. Ficam encantadas apenas por estar perto de uma pessoa famosa.
Percebe-se que os personagens do filme apresentam de certa forma uma personalidade flexível, que muda de acordo com as situações que vão se desenvolvendo. Herschmann e Pereira apontam que as novas tecnologias de comunicação, aliadas ao processo de globalização aumentam de forma considerável a quantidade de informação que os indivíduos recebem. Sendo assim, a identidade desses indivíduos passa a ser multifacetada, e moldada de acordo com as interações sociais. As pessoas passam a interpretar e interagir com as coisas ao seu redor de acordo com aquilo que se torna mais conveniente no momento, sem se preocuparem de estarem sendo incoerentes com sua personalidade. Essa característica pode ser observada no personagem Craig (John Cusack) que assume o corpo de Malkovich apenas para ter o amor da personagem Maxine.
A identidade fragmentada, segundo os autores, é um dos fatores responsáveis pela urgência que o bibliográfico ganhou nos meios de comunicação na sociedade contemporânea. Já que ele surge como um meio de unificar identidades. “Em certo sentido, algumas das características do mundo contemporâneo explicariam a relevância e o crescimento do biográfico, destacando-se, ai, a questão da fragmentação da identidade.” (Herschmann Pereira, pág 33).
O artigo ainda trata da questão das celebridades que ganham reconhecimento em razão de uma engenharia mediática, que tem o poder de transformar pessoas sem nenhum talento aparente em pessoas famosas. É possível reconhecer como funciona o trabalho da engenharia mediática no filme, quando Maxine se torna conhecida como a “mulher por trás do Malkovich titereiro”, situação que ocorre quando Craig assume de vez o corpo de John Malkovich. Ela ganhou visibilidade por estar ligada a uma pessoa famosa, e isso foi trabalhado pela mídia. A imagem dela foi moldada na de uma mulher forte, inteligente e determinada, capaz de ser a mola propulsora do sucesso de quem estiver ao seu lado.
Na década de 60, Andy Warhol dizia que no futuro todo mundo teria direito aos seus quinze minutos de fama. Apesar das já citadas novas tecnologias de comunicação, terem o poder de transformar o comum em extraordinário, não seria exatamente certo dizer que vivemos o futuro profetizado por Warhol, já os quinze minutos de fama são disputados a ferro e fogo por muitas pessoas que não enxergam limites em ações para conseguir visibilidade. Talvez esse desejo exista como um meio inconsciente dos indivíduos enxergarem a identidade fragmentada de formada unificada e coerente.







